Método Montessori (0-3 anos) I

Há cerca de um mês, fiz uma formação introdutória ao método Montessori, direcionada para crianças dos 0 aos 3 anos. Foi uma formação de uma semana, online, pelo International Montessori Institute, de Barcelona.

Na formação, aprendemos sobre os princípios básicos do método Montessori, os pontos a trabalhar nestas idades, a organização do desenvolvimento e foram dadas muitas ideias de atividades bem simples para fazermos com crianças.

Vou fazer deste assunto uma série de artigos, para que consiga passar-vos conhecimento com estrutura e com lógica. Será uma espécie de guia Montessori para pais práticos e ocupados. 😉

Imagem: Unsplash

Um pouco de história

O Método Montessori destaca-se pela sua universalidade: Maria Montessori ofereceu-nos um olhar sobre a educação como uma ajuda à própria vida humana, sendo o ecletismo e a postura científica e multidisciplinar os pontos que mais distinguem esta corrente das restantes.

Ao observar cientificamente o que crianças faziam, Maria Montessori encontrou características biológicas e psíquicas intrínsecas e inerentes a toda a humanidade. Assim, percebeu o potencial da educação para desenvolver essas características a favor de um mundo pacífico. A Educação Montessori baseia-se em leis da existência, no respeito pelas necessidades humanas e na proteção e ajuda ao desenvolvimento do ser humano.

Maria Montessori era oriunda de uma família letrada; foi das primeiras mulheres a obter o título de médica em Itália, com um estudo sobre neuropatologias. Combinando a ação social com o trabalho como docente em Pedagogia, especializa-se em doenças nervosas e mentais numa clínica psiquiátrica da Universidade de Roma; aí, observou os comportamentos de um grupo de crianças e jovens com acentuadas dificuldades de aprendizagem. Neste primeiro contacto, observa que algumas necessidades transparecem através de determinados comportamentos, como brincar concentradamente com pequenas migalhas no chão, por não terem quaisquer outros objetos à disposição, o que a leva a intuir que existe um potencial latente no desenvolvimento destas crianças e jovens.

Entretanto, e já como co-diretora do Instituto Ortofrénico, uma escola médico-pedagógica para crianças com problemas de aprendizagem, verifica o impacto das condições desadequadas em que viviam as crianças internadas nos hospícios de Roma (frequentemente nas mesmas instalações dos adultos), sem quaisquer estímulos ou afeto. Foca-se, então, em criar um ambiente estimulante, com atividades que as ocupassem e utensílios que pudessem manejar.

Como resultado, apercebe-se que muitas destas crianças teriam sido diagnosticadas com dificuldades de aprendizagem erradamente: as condições ambientais e médicas em que se encontravam teriam mais peso nas suas dificuldades do que os problemas cognitivos e pedagógicos apontados. Para o provar, inscreve algumas das crianças nos exames nacionais italianos, em que algumas destas crianças tiveram melhores classificações do que a média nacional.

Este resultado leva-a dedicar-se ao estudo de problemas educativos e pedagógicos, tendo por objeto crianças típicas. Continua os seus estudos em Antropologia Pedagógica, com dedicação contínua às crianças com patologias e à instrução de professores.

Em 1906, é convidada por Eduardo Tálamo para a abertura de uma escola para os filhos dos habitantes de um bairro operário e carenciado de Roma, em S. Lorenzo, que viria a servir para educar as crianças desfavorecidas enquanto os pais trabalhavam. Tinha o proósito de alargar a educação das crianças ao seio familiar, o que consequentemente reverteria na boa utilização e manutenção dos edifícios e infraestruturas do bairro. É assim que a 6 de janeiro de 1907 abre a primeira Casa dei Bambini no bairro de S. Lorenzo, a primeira de muitas “Casas das Crianças”. É nesta estrutura, que Maria Montessori se apercebe da busca espontânea das crianças pelo conhecimento e da sua capacidade inata para organizarem a própria existência. Daqui, inicia a formulação do Método Montessori.

Imagem: Reshot

A Mente Absorvente e os Períodos Sensíveis

Agora sim, vamos entrar em conceitos do Método Montessori.

A Mente Absorvente é um conceito basilar aqui, pois explica a capacidade latente do Ser Humano em desenvolver-se e adaptar-se ao contexto onde se encontra desde que nasce. É composta por predisposições que nascem com a criança e revela-se na capacidade mental de absorver do ambiente todos os elementos necessários ao seu desenvolvimento.

É uma forma única de psique, característica e exclusiva da infância, que transforma os seres humanos em seres únicos e irrepetíveis, capazes de adaptação a qualquer condição social, clima e localização e sem travão geracional.

A forma de funcionamento da Mente Absorvente é distinta nas sub-etapas do primeiro Plano
de Desenvolvimento e funciona sem qualquer esforço, podendo absorver do seu ambiente tudo o que ali for proporcionado, como por exemplo várias línguas estrangeiras. Por outro lado, não sendo seletiva, recolherá do ambiente todos os elementos indiscriminadamente, negativos ou positivos.

  • Entre os 0 e os 3 anos funciona de forma inconsciente, absorvendo todas as impressões
    do ambiente de forma sensorial. Não armazena todas as experiências na memória, apesar de virem a fazer parte daquilo que a criança virá a ser.
  • Entre os 3 e os 6 anos assume a forma consciente, pois a criança que já consegue
    interagir fisicamente com o contexto utiliza-o para aperfeiçoar as suas aquisições e
    construir a inteligência através do trabalho da mão.

O Períodos Sensíveis são momentos de grande concentração e atividade, impelidas por uma força anímica a exercer um esforço intenso até adquirirem determinada característica. Ativam-se de forma sequencial e/ou paralela, sobretudo na Primeira Fase de Desenvolvimento, entre os 0 e os 6 anos. São espaços temporais em que a criança possui sensibilidades especiais relativamente a alguns elementos que encontra no ambiente, que são fundamentais para a sua auto-construção. Esses elementos guiam e ajudam a criança a desenvolver as suas capacidades físicas, intelectuais e psicológicas mais facilmente e com perfeição.

  • Os períodos sensíveis são universais: são um fenómeno biológico que ocorre em todas as crianças, independentemente da sua localização geográfica, cultura ou tempo histórico.
  • Levam-na ao desenvolvimento das suas capacidades físicas, intelectuais e psicológicas e atuam como impulso para aprenderem com paixão.
  • Trazem imensa satisfação quando seguidos e a criança não se cansa tanto enquanto alimenta a sua necessidade de desenvolvimento.
  • São observáveis: podemos ver as crianças atraídas por determinada atividade ou objeto de forma intrínseca e seguindo uma motivação interna.
  • Iniciam antes de serem observáveis, quando muitas das capacidades já se estão a estruturar no cérebro.
  • São transitórios: um período sensível pode desaparecer por duas razões diferentes, um contexto pobre em estímulos ou quando determinada competência já foi adquirida (são subconscientes: quando a habilidade correspondente se torna consciente, o período sensível cessa).

Tendências Humanas

Apesar de termos falado das tendências humanas após os períodos sensíveis na formação, parece-me que fica tudo mais claro se inserir agora o conceito depois o explorar.

O ser humano e os animais apresentam necessidades fundamentais para viverem. A satisfação dessas necessidades nos animais está no seu interior e chama-se “instinto”; nas pessoas, a satisfação dessas necessidades estimula o desenvolvimento das tendências humanas.

Estas tendências são padrões de comportamento partilhados por todos os seres humanos (universais). Apresentam-se ao longo da vida, ajudando o indivíduo a sobreviver, desenvolver-se e a conquistar o ambiente que o rodeia, independentemente da época, lugar, costumes ou religião. Têm diferentes manifestações dependendo da etapa de desenvolvimento.

Caracterização dos Períodos Sensíveis

Continuamos então com os períodos sensíveis. Cada período sensível tem uma duração e uma manifestação específica consoante a idade; podem sobrepôr-se e desenvolver-se em paralelo, mas as durações podem variar.

  1. Ordem (entre o primeiro e o segundo ano de vida):

O período sensível da ordem responde à necessidade universal e é considerado uma Tendência
Humana. Quer isto dizer que a ordem externa é muito importante para as crianças pequenas e diz respeito quer à localização dos objetos (têm o mesmo lugar), como às suas rotinas diárias. Esta ordem externa permite que a criança se localizar física e temporalmente, memorizando, estabelecendo sequências e relações, com a construção de uma ordem interior e do sentimento de confiança relativamente ao ambiente que a rodeia.

Cria-se também a memória muscular que as crianças desenvolvem neste Período Sensível. Esta vai permitir-lhes conhecer as várias posições dos seus membros corporais e posteriormente responder à tendência humana de orientação e de movimento.


2. Linguagem (entre os 0 e os 6 anos):

Existem vários tipos de linguagem, desde a expressão do recém-nascido através do choro, à construção da linguagem oral que conduzirá aos processos de escrita e leitura. As crianças têm a sua dinâmica de próprio desenvolvimento linguístico.

3. Movimento (entre os 0 e os 6 anos):

Maria Montessori diferencia a mobilidade do movimento coordenado pelo sistema nervoso central, onde estão implícitos a vontade e o própósito. Em ambos, a atividade é essencial ao processo de estabelecimento e reforço das conexões neuronais. A repetição de um padrão de movimento permite que a criança aperfeiçoe a coordenação, criando harmonia – a inteligência constrói-se através do movimento voluntário: a criança percebe um estímulo e reage com interesse a este, explora-o (utilizando os sentidos) e esta experiência transforma-se numa nova fonte de informação para o cérebro.


4. Refinamento Sensorial (entre os 3 e os 6 anos):

A criança relaciona-se com o mundo através da informação recebida através dos sentidos; quando apresenta esta sensibilidade, devemos apresentar-lhe materiais de Educação Sensorial, através dos quais ela irá ordenar, classificar e descrever as impressões sensoriais em relação ao comprimento, largura, temperatura, peso, cor, etc.

Imagem: pexels

No próximo artigo sobre o Método Montessori, iremos falar sobre as Tendências Humanas, que já definimos acima, e sobre as etapas de desenvolvimento 🙂

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