Nasci; e agora?

Ouve-se muito a frase “quando nasce um bebé, nasce uma mãe / pai”. Dita assim de forma tão leve, até parece uma verdade universal.

Eu diria que os pais têm um nascimento lento, quase que ao ritmo do desenvolvimento do bebé na barriga da mãe. Assim como há o pós-parto, também acredito que haja um período de incubação destes pais, de semanas (ou meses!) durante a gravidez em que se vão formando as bases da parentalidade destes seres.

Somos confrontados com uma série de desafios e incertezas a partir do momento em que sabemos que um novo ser se está a formar. Para mim, é aí que começa o nascimento dos pais; é o momento em que aquele novo ser, que não conseguimos fisicamente ver, mas que começamos a conseguir imaginar, toma conta do nosso pensamento e passa a ser o centro de muitos dos nossos dias.

Infelizmente, muitos deles não chegam a sair desta zona do pensamento, mas criam a sua marca nos pais. Apesar de nunca o terem visto, amam-no como se o abraçassem todos os dias. E porquê? Porque se tornaram pais a partir do momento em que aquela semente passou a existir para eles.

As crianças não nascem com livro de instruções – e algo me diz que se o trouxessem seria um livro de uma edição já antiguinha e ultrapassada, em que pouco ou nada funciona com elas! Se é verdade que nos sentimos, muitas vezes, incapazes e uns idiotas perante um ser tão pequeno e supostamente indefeso, se viesse com um livro de instruções, acho que o atestado de incompetência seria ainda maior! Apesar de falso, tenham lá calma. Sim, sentimo-nos assim muitas vezes, mas só nós sabemos o que damos de nós para que, melhor ou menos bem, cuidemos dos nossos filhos diariamente, hora após hora. (Aproveito para fazer aqui o aviso de que as crianças continuam a nascer sem saberem voar, por isso nós continuamos se os poder mandar borda fora quando já nos exasperaram o zen buda.)

Assim, nós, que passámos pelo pré-parto, aquelas semanas intermináveis de gravidez – que pessoalmente não me chatearam muito, tirando nas semanas da segunda gravidez em que soube que estava infetada com o CMV – são frequentemente já uma loucura para estes pais que ainda nem viram a criança que aí vem. Isto é mais complicado no primeiro, até porque temos todas as incertezas possíveis e imaginárias e é difícil negar todos os conselhos e dicas que nos dão. Mas treinem-se para dizer que não, ok? Ou para ignorarem com sucesso muita coisa que vos dizem. Primeiro, porque nem tudo é verdade; segundo porque nada é universal.

As cólicas não são universais e se houvesse uma solução milagrosa (nem que fossem óleos essenciais), o tipo que inventasse a solução seria um gajo (ou gaja, vá) conhecidíssimo riquíssimo, a disfrutar de uma reforma antecipadíssima em Bora-bora.

A amamentação não é universal e, sim, há quem não o consiga fazer, assim como há as mães cujas mamas têm mais leite a cada duas horas que os pacotes de um litro da Mimosa.

Os sonos não são universais. As minhas filhas desde cedo que dormem a noite toda; já os dias eram intermináveis. Não há perfeição! Eu gostava de ter podido fazer alguma coisa durante os dias em que estive de licença, das duas vezes, porque na maioria dos dias nem comer em paz podia. Ah, mas se as noites eram compridas então está tudo bem. Nem imaginam as vezes em que ouvi isto e só me apetecia esbofetear as pessoas, porque é ridículo, é um julgamento básico e faz-nos olhar para quem fala connosco como se fossem atrasados mentais. Não são; só querem dar-nos a parte positiva, na maioria das vezes. Mas nós estamos todos exaustos e cansados e daríamos um braço para podermos ir tomar banho em paz e sossego. E, de preferência, sem dores.

Não há partos iguais; não mandamos grande coisa, nem em como corre a gravidez, nem o parto. Podemos ir fazendo a nossa parte para que as coisas corram mais serenamente, mas pronto. O meu primeiro parto foi uma brisa. Tive uma dor assim-assim, fui para o hospital e já estava com a dilação a meio caminho para o parto; mal tive tempo para esperar que o meu médico chegasse e a catraia não me deixou fazer a dilatação total por pouco. Foi 1, 2, 3 e puf. Criança.

Estão a limpá-la e diz-me a enfermeira: “Já viu, vai sair daqui toda elegante, já não tem barriga!”. E pronto, crashei. O meu cérebro – e o resto do corpo, mas principalmente a massa cinzenta – estava habituada ao bebé dentro da barriga e aquela coisa gentil redonda sempre à minha frente, indissociável de mim. E, de repente, moment of truth!, a criança está cá fora e mais do que a prova de a ter visto a sair, foi pôr as mãos ao ventre e estar vazio.

“Oh que caraças, porra”. Juro-vos que foi o que pensei. Não estava preparada para aquilo, por mais simples que tenha sido! Mas passou. Logo a seguir comecei a tremer de frio na marquesa, achei que ia morrer de hipotermia e o meu marido dizia-me que eu não estava fria, e a enfermeira (a mesma do “tadah!” anterior) dizia-me que era normal, que estava a tremer por causa do esforço do parto. Pronto, confesso que pensei mesmo que ia morrer mas em 5 minutos (na verdade foi menos do que isto, o meu marido já mo disse algumas vezes) passou.

Drama.

Ok, vamos a segundo parto. A gravidez foi diferente. A evolução foi diferente e havia a possibilidade de eu dar à luz um bebé com imensos problemas. Não estava preparada para nada disto. Caramba, não podia ser igual à primeira? Claro que não.

Portanto, águas rebentadas – coisa que não aconteceu da primeira vez – e lá vamos nós. Chegados ao hospital, quase nenhuma dilatação e a catraia subida (decidiu mexer-se nas últimas semanas e desencaixar da Via Verde). Esperamos. Duas horas depois fica taquicárdica. Está qual Miss Portugal 2019 no ventre a brincar com o cordão; será algum ímpeto suicida? Esperemos que não. Não evolui favoravelmente, por isso lá vamos nós para a cesariana. “Já sabia que ia ser assim”, pensei eu. Mais uma vez, não havia grande escolha e lá fomos nós. Enquanto o primeiro foi uma coisa que foi super simples e agradável, este foi um cenário que gostava de ter evitado. O pós-parto foi mais complicado, com imensas dores e sem ligação à minha filha. Olhava para ela e era-me indiferente ela estar ali ou não. O choro dela incomodava-me, mas não num sentido de urgência como o da irmã; deixava-me irritada, só queria voltar-lhe as costas e tudo nela me parecia uma obrigação que não queria ter de forma alguma.

Agora ela já tem um ano e um mês (feitos hoje) e sinto-me como se tivesse passado por um novo curso sobre a parentalidade com ela. Mas daqueles tirados à força, como aquela cadeira da faculdade que nos chateia e que nos contenta se tivermos um 10 à rasca só para não vermos mais aquilo à frente. A diferença é que esta não nos larga. 😛

Acham que “nasci” como mãe quando nasceu a minha primeira filha? Nem pensar. Sinto que é um nascimento constante. Nem tudo são rosas; nem tudo são espinhos. Sei dizer que não e ignorar com sucesso muitos comentários. Conheço as minhas filhas mas conheço mais delas todos os dias. Por digo que é um nascimento constante. 🙂

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