A arte de nos retratarmos: por que admitir erros é fundamental

Há uns tempos, uma mãe que conheço tentou resolver uma situação (podemos dizer que seria um possível desentendimento) com alguém do círculo do filho. Enviou uma mensagem com um tom de quem estava chateada, sim, mas sem insultos, sem ameaças, sem falta de educação. Havia algo que lhe tinha caído mal, e quis dizer isso diretamente, como adulta.

A resposta que recebeu foi de alguém que se sentia ofendida por estar a ser questionada. Que tinha testemunhas do que fez. Que tudo tinha corrido bem da parte dela. Que o problema era, afinal, do lado de cá.

Nenhum “deixa-me perceber melhor o que aconteceu.” Nenhum “tens razão, podia ter comunicado melhor.” Nenhum momento de paragem genuína para considerar que o outro lado podia ter um ponto válido.

Reconhecem este padrão? Eu reconheço. E acontece em todo o lado.

Quando uma crítica se torna um ataque

Vivemos numa época estranha. Por um lado, nunca se falou tanto de empatia, de escuta ativa, de comunicação não-violenta. Há workshops, podcasts, livros de bolso. Por outro lado, a nossa capacidade real de ouvir algo que não gostamos — sem partir para a defensiva — parece estar a encolher a uma velocidade assustadora.

Um comentário construtivo é recebido como uma afronta pessoal. Uma diferença de opinião é lida como uma declaração de guerra. Alguém que discorda de nós deixou de ser alguém com outro ponto de vista e passou a ser “alguém que está contra mim”.

E não estou a falar de situações extremas. Estou a falar do dia a dia: no grupo de WhatsApp dos pais, na conversa de café, nas redes sociais onde qualquer comentário, por mais suave que seja, pode despoletar uma reação completamente desproporcional.

O problema não é discordar. O problema é que já não sabemos discordar sem nos sentirmos ameaçados.

Que mundo é este onde já não podemos falar?

Tenho pensado muito nisto ultimamente. Que mudou, exatamente?

Será que sempre fomos assim e só agora notamos mais? Ou será que há algo no tempo em que vivemos — entre redes sociais onde, escondidos por um ecrã, qualquer comentário se torna numa batalha, entre a pressa constante, entre a valorização do “ter razão” acima do “perceber o outro” — que nos tornou mais frágeis a qualquer sinal de crítica?

Sinto que estamos a viver num mundo cada vez mais egocêntrico. Um mundo onde “eu” se tornou o centro absoluto da narrativa. Onde tudo o que alguém diz é imediatamente filtrado por “o que é que isto diz sobre mim?” em vez de “o que é que esta pessoa está a tentar comunicar?”

E o resultado é este: já não conseguimos ter conversas difíceis. Não conseguimos dizer “isto magoou-me” sem que o outro interprete como “tu és uma pessoa má.” Não conseguimos ouvir “acho que isto podia ter sido feito de outra forma” sem lermos “és incompetente.”

Transformámos tudo numa questão de identidade. Como se uma crítica a uma ação fosse uma crítica à pessoa inteira. Como se reconhecer um erro fosse aceitar que somos um fracasso, mesmo quando o âmbito não é, de todo, pessoal.

E assim, em vez de diálogo, temos trincheiras. Em vez de conversas, temos monólogos paralelos. Em vez de relações, temos campos de batalha onde o objetivo é nunca ceder terreno — mesmo quando, lá bem no fundo, sabemos que a outra pessoa tem razão e houve porquê legítimos para a sua perspetiva.

O ego que não dobra

Voltando àquela situação: o que teriam custado duas frases? “Tens razão, devia ter tratado isto de forma diferente. Peço desculpa pela confusão.” Era tudo. A conversa teria terminado ali, com dignidade dos dois lados.

Mas pedir desculpa tornou-se, para muitos adultos, quase um sinal de fraqueza. Admitir que nos enganámos parece diminuir-nos. E então ficamos ali, agarrados à nossa versão dos factos — mesmo quando toda a evidência aponta noutro sentido — porque recuar seria “perder” e isso não é opção, nem que se ponham pessoas de fora – até crianças — como escudo.

Mas perder o quê, exatamente?

A ironia é que quanto mais rigidamente defendemos uma posição que não se sustenta, mais perdemos — em relações, em credibilidade, em respeito. A pessoa que consegue dizer “enganei-me” não fica menor. Fica maior. Porque toda a gente à volta sabe que aquilo custou qualquer coisa, e que foi dito na mesma.

E fico a pensar: o que é que se perdeu, para chegarmos aqui? Quando é que a humildade deixou de ser uma virtude e passou a ser vista como fraqueza? Quando é que admitir vulnerabilidade se tornou perigoso?

Retratar-se: a arte que esquecemos de praticar

Quero ficar um pouco mais neste ponto, porque acho que é o mais esquecido — e o mais importante.

Retratar-se não é só pedir desculpa. É reconhecer, genuinamente, que estávamos errados. É conseguir dizer “enganei-me” sem imediatamente adicionar um “mas…” que desfaz tudo. É aceitar que mudar de posição não é incoerência — é crescimento.

E isto acontece — ou devia acontecer — entre adultos, muito antes de chegar às crianças.

Quantas vezes, numa discussão com o nosso parceiro, teimamos numa posição que já sabemos que não faz sentido, só porque ceder parece uma derrota? Quantas vezes, numa conversa com um colega de trabalho, reconhecemos interiormente que ele tem razão, mas não o dizemos em voz alta? Quantas vezes enviámos uma mensagem dura, percebemos depois que fomos longe demais, e simplesmente… não voltámos ao assunto?

O retratar-se entre adultos importa por si próprio, independentemente de haver crianças a ver. Importa para as relações, para a confiança, para a saúde dos ambientes onde vivemos e trabalhamos. Uma equipa onde ninguém assume erros é uma equipa paralisada. Uma amizade onde ninguém pede desculpa genuinamente é uma amizade que vai ficando cada vez mais fria. Um casal onde “perder” uma discussão é um risco existencial está constantemente em guerra.

Há qualquer coisa muito libertadora em dizer “estava errado.” Não porque nos diminua — mas precisamente porque prova que não precisamos de ser infalíveis para ter valor.

Colocarmo-nos no lugar do outro — mesmo quando dói

Há outro elemento comum a estas situações que me deixa a pensar, com algum peso: a total ausência de tentativa de perceber o lado da outra pessoa.

Quando alguém nos contacta chateado, a primeira pergunta devia ser “porque é que esta pessoa está a sentir-se assim?” e não “como é que me defendo?”. Não é uma questão de concordar. É uma questão de tentarmos, por um momento, sair de nós próprios.

Se nos pusermos do lado da outra pessoa: havia uma situação mal comunicada, uma sensação de descuido, às vezes um comentário anterior que soou a crítica velada a um filho, ou outra coisa. É natural que estas situações se acumulem. Uma conversa aberta e sem defensivas teria resolvido tudo em dois minutos. Até porque, se pararmos e pensarmos, há um par de situações em que as pessoas nos criticam: se não têm qualquer ligação a nós (exemplo: sentimos que fomos mal atendidos numa loja) ou se acham que podemos melhorar porque têm uma relação connosco (pode ser pessoal ou profissional).

Mas isso exige algo que parece cada vez mais raro: a capacidade de descentrar. De parar de pensar em termos de “eu vs. tu” e começar a pensar em “nós estamos a tentar perceber o que aconteceu aqui”.

Empatia não é concordar com tudo. Não é evitar o conflito. É conseguir, por um momento, ver a situação pelos olhos do outro — e perguntar honestamente: “faz sentido que esta pessoa esteja chateada?” Muitas vezes, a resposta é sim. E reconhecê-lo não nos destrói.

As crianças estão a ver tudo — e não só os pais

É aqui que a coisa fica ainda mais séria.

As crianças não aprendem o que nós lhes dizemos. Aprendem o que nós fazemos. E “nós”, neste caso, não somos apenas os pais.

São os professores que, quando se enganam numa data, numa correção, num julgamento sobre um aluno, não voltam atrás — porque a autoridade não se questiona. São os treinadores que gritam quando as coisas correm mal e nunca reconhecem que a estratégia era má. São os professores de música que humilham em vez de corrigir, convictos de que a pressão é pedagogia. São os monitores de teatro que descartam ideias dos miúdos sem as considerar um segundo, porque “são só crianças”. São os educadores que reagem a uma pergunta difícil com impaciência, em vez de dizerem simplesmente “não sei, vamos descobrir juntos.”

E são também os adultos que, quando confrontados com uma crítica legítima, respondem como se estivessem a ser julgados num tribunal — em vez de simplesmente ouvirem.

Todas estas pessoas são modelos. Não modelos que as crianças escolhem conscientemente — mas modelos que absorvem de forma automática, porque é assim que o cérebro em desenvolvimento funciona: observa, regista, replica.

O que pedimos às crianças que não sabemos dar

E depois estranhamos quando os nossos filhos não sabem gerir as emoções com os outros. Quando não conseguem ouvir uma crítica sem ir abaixo. Quando reagem a qualquer contrariedade como se fosse um ataque pessoal. Quando tratam o choro ou a frustração de um colega como um inconveniente, em vez de uma emoção a acolher.

Não nasceram assim. Aprenderam.

Aprenderam connosco, os pais. Aprenderam com os professores, com os treinadores, com os monitores de dança, com os instrutores de escuteiros. Aprenderam com todos os adultos que passaram pelas suas vidas e que, coletivamente, foram desenhando uma ideia do que é “ser adulto.”

Se essa ideia inclui “nunca reconheças que erraste”, “trata qualquer crítica como um ataque” e “o teu ego é mais importante do que a relação”, então é isso que vão levar para a vida.

E fico a pensar: que adultos estamos a criar? Numa sociedade onde já ninguém sabe pedir desculpa, onde ninguém consegue ter uma conversa difícil sem partir para a defensiva, onde a empatia é uma palavra bonita mas raramente praticada — que tipo de relações é que estas crianças vão conseguir construir?

Quando funciona — e porque é que nos marca tanto

Lembro-me de uma reunião de trabalho há uns anos. Um colega tinha tomado uma decisão que correu mal — toda a gente na sala sabia, ele sabia, o nosso chefe (ou “gestor”, para não ferir as suscetibilidades) sabia. Havia aquela tensão no ar, à espera de ver o que ia acontecer.

E ele disse, com uma calma meia ansiosa: “Não estive bem. Assumi uma coisa que não verifiquei, e custou-nos tempo e dinheiro. A responsabilidade é minha.”

Não houve desculpas. Não houve “mas ninguém me avisou” ou “as circunstâncias mudaram”. Houve uma pessoa adulta a dizer “errei” e depois a passar ao que fazer a seguir.

A reunião continuou. Ninguém perdeu a confiança nele. Pelo contrário — ficou ali registado que aquela era uma pessoa com quem se podia trabalhar porque não perdia tempo a proteger o ego quando havia problemas reais para resolver.

Noutra perspectiva: uma amiga minha, que foi professora, há uns tempos contou-me uma situação em que tinha acusado um miúdo de copiar num trabalho: o estilo de escrita era completamente diferente, parecia óbvio. Chamou os pais, fez a conversa toda.

Dois dias depois, o pai trouxe provas: o miúdo tinha escrito aquilo. Tinha estado a ler livros diferentes, pediu ajuda a colegas, e estava, de facto, a tentar melhorar.

A minha amiga começou a aula seguinte por dizer, à frente da turma toda: “Enganei-me contigo. Fiz um julgamento demasiado rápido e não devia. Peço-te desculpa.”

O miúdo ficou de boca aberta. Os colegas também. Porque aquilo não costuma acontecer — um adulto, ainda por cima uma professora, a dizer claramente que se enganou. Mas não teria o mesmo impacto se ela o tivesse chamado à parte e dito apenas para ele ouvir.

E há um terceiro exemplo que ouvi recentemente, este vindo do lado dos pais.

Uns pais foram à escola, bastante chateados, porque o filho tinha chegado a casa a dizer que tinha sido castigado injustamente. Na versão do miúdo, ele não tinha feito nada e tinha sido culpado por algo que outro colega tinha começado. Enviaram email para a escola, que os chamou para uma reunião.

A reunião começou tensa. Os pais queriam explicações. A escola explicou o que tinha visto: o filho deles tinha, de facto, reagido de forma desproporcional a uma provocação pequena, e a auxiliar que estava presente só tinha visto a reação dele, não o que a antecedeu.

Houve um momento de silêncio. E então a mãe disse: “Ok. Percebo. Ele omitiu essa parte quando nos contou. E nós viemos aqui partir do princípio de que a escola estava errada sem sequer perguntar a vossa versão.”

O pai acrescentou: “E vocês também podiam ter investigado melhor antes de castigar, porque claramente havia mais contexto.”

A professora dele assentiu: “Têm razão. Devíamos ter falado com os dois miúdos antes de decidir.”

A reunião terminou com um plano: o castigo seria revisto, mas o miúdo teria uma conversa sobre gerir provocações sem explodir. E os pais iriam falar com ele sobre contar a história toda quando há um problema.

Ninguém saiu dali a “ganhar.” Mas toda a gente saiu com mais respeito uns pelos outros, porque houve adultos, dos dois lados, dispostos a dizer “também não fiz isto bem.”

Isto devia ser normal. Mas marca-nos precisamente porque não é.

Quantas vezes assistimos ao oposto? Pessoas que tentam diluir a culpa, que apontam dedos, que transformam um erro simples numa guerra de narrativas — só porque admitir que erraram parece pior do que tudo o resto?

O que podemos fazer, a começar hoje

Não estou aqui a dizer que é fácil. Crescemos nós próprios em ambientes onde, muitas vezes, os adultos também não pediam desculpa. Onde a crítica era mesmo um ataque. Onde mostrar vulnerabilidade era arriscado.

Mas podemos interromper esse ciclo — cada um no seu papel.

Pais: quando errarmos com os nossos filhos, digamos. Não precisamos de fazer um discurso. Um simples “fui injusta contigo hoje, e peço-te desculpa” é suficiente — e é imenso.

Professores, educadores, monitores e treinadores: lembrem-se de que a vossa relação com o erro é tão pedagógica como qualquer conteúdo que ensinam. Quando se enganam, assumam. Quando recebem uma crítica, ouçam. Isso não vos torna menos — torna-vos melhores modelos.

E todos nós, em geral: quando recebermos uma crítica, respiremos antes de responder. Perguntemos a nós próprios: “Há algo aqui que vale a pena ouvir?” Quando estivermos errados, sejamos os primeiros a dizê-lo — sem “mas”, sem testemunhas, sem contra-ataque.

Porque há olhos pequenos a ver como é que nós, adultos, nos comportamos quando as coisas ficam difíceis.

Esses olhos estão a aprender. A questão é: o quê?

Já tiveram que se retratar com alguém (filho, colega, amigo, etc) e correu melhor do que esperavam? Contem nos comentários.

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