A Mamã convida: Quando tudo são incertezas

O texto de hoje é da Sofia, que nos traz uma história de força e persistência, quando as limitações que nos impõem são maiores do que alguma vez esperávamos.
Agradeço desde já à Sofia pela partilha ❤
“Éramos um casal como todos os outros, queríamos passar pela experiência de ser pais.

A nossa bebé foi muito desejada, tanto que estivemos a tentar durante mais de 1 ano que eu engravidasse…até que o ano passado, numas férias, a coisa pegou..! 🙂

A minha gravidez correu normalmente até às 34 semanas (quando a Lara virou), onde tive ameaça de parto prematuro.
Eu estive internada uns dias, a levar picadas para a maturação pulmonar da Lara e a tomar uns comprimidos para que as contracções parassem.
Eu saí do hospital bem mas não muito convencida que a partir de ali a Lara fosse ficar muito mais tempo no meu forninho.

Na semana em que eu ia completar as 36 semanas (no sábado), começou mal…
Comecei a semana com dores no fundo da barriga e umas dores no recto muito fortes como se me tivessem a espetar uma agulha por aí a cima.

Terça-feira, fui ao obstetra que me mandou ir ver o gastrenterologista de urgência porque podia ser hemorróida trombosada (acontece a muitas grávidas que sejam muito presas do intestino).

Fui ao gastrenterologista, que fez colonoscopia no próprio dia e reparou que havia um aglomerado de fezes duras e achou que fosse isso o problema.
Tomei várias coisas para evacuar, mas as dores foram piorando.

Quarta-feira à noite, eu tive um pico de febre e, de repente, parecia que não tinha nada, então fiquei por casa a descansar.

Quinta-feira, dores horríveis novamente. Fui às urgências do hospital público onde pretendia ter a Lara.
Apanhei uma médica que à força toda queria me rebentar as águas ao fazer o toque, pois doeu tanto e fez tanto força que me empurrou quase da maca fora…
Não conseguindo, mandou fazer análises e descobriram que eu tinha a proteína C reactiva muito elevada.
A proteína C reactiva (PCR) se estiver elevada, indica a presença de algum processo inflamatório ou infeccioso.
No hospital não sabiam o que fazer e mandaram-me falar com o meu obstetra.

Sexta-feira, liguei ao meu obstetra que me mandou ir às urgências do hospital privado onde eu era seguida por ele.
Fui logo de manhã à urgência de obstetrícia com as análises que eu tinha feito no dia anterior.
Saí de lá ao fim da tarde, igual… Viram que o PCR ainda estava mais elevado que no dia anterior mas mandaram-me para casa com paracetamol e um comprimido para as dores em SOS.

Sábado ao jantar, fui à casa de banho, onde saiu um líquido transparente pelo meu rabo e deu-me uma dor forte por baixo da barriga.
Deixei de conseguir andar, as dores eram tantas que o meu marido teve de chamar uma ambulância.

A ambulância levou-me para o Hospital de Santa Maria.
Tiveram a noite toda até às 4h da manhã a fazerem exames para entenderem o que se estava a passar, uma vez que eu não estava em trabalho de parto.
Não descobriram nada mas avisaram que eu ficava internada.

Domingo de manhã, eu não conseguia comer nada, deram-me uma pêra e vomitei-a toda.
Doía-me a barriga toda, as enfermeiras ajudaram me a ir tomar banho e eu nem conseguia passar as mãos pela barriga que doía…

Domingo à tarde, retomaram os exames e ao fazerem uma ecografia ao abdómen descobriram uns líquidos estranhos que não deveriam estar ali.

Domingo às 19h e pouco, os médicos vieram nos dizer que tinham de me operar de urgência sem saber muito bem o que se esperava, iam tirar a Lara e depois iam cuidar de mim.

Fui mãe às 20h32 de uma bebé linda, chamada Lara, mas que eu não conhecia…

Acordei nos cuidados intensivos, já era muito tarde, mas o meu marido quis mostrar-me uma fotografia da nossa filha.
Eu adormeci com a imagem dela na minha cabeça.

Eu estive internada quase 1 mês no Santa Maria.
Tive uma peritonite, que é uma infecção no abdómen, e o intestino estava todo inflamado.
Eu estive quase 3 semanas de barriga aberta, em que mais ou menos de 2 em 2 dias, eu ia a bloco.

A minha bebé esteve 1 semana na Neonatologia, felizmente correu tudo bem com ela.
Eu não pude estar com a Lara enquanto estive internada.
No dia da Lara sair da Neonatologia, as enfermeiras foram umas queridas e deixaram o meu marido trazê-la no ovo, mas teve de ficar longe de mim.

Chorei muito enquanto estive lá internada.
Tive raiva de tudo o que me estava a acontecer e tinha ciúmes de quem podia estar com a Lara.
Estar numa cama, de barriga aberta e ter um saco na barriga para as fezes saírem, para mim, era nojento. Eu tinha nojo do meu corpo.

Como sabem o Santa Maria é hospital universitário… o que quer dizer que andam por lá os Professores Doutores a ensinar.
Estar na cama, a sentir me mal, a chorar e vir o Prof. Dr. com os seus alunos a fazerem de mim uma montra, quando só te apetece estar no teu canto e chorar…foi uma das coisas que mais me marcou… é horrivel… mas há tantas e tantas coisas que nos marcam quando se está nesta situação que não há maneira de descrever tudo isso aqui.

Nessa altura, o que me salvou da loucura, foram os amigos, a família e até as enfermeiras que, não parecendo, têm um trabalho muito complicado e mesmo assim estavam ali para mim, para me consolar quando eu precisava. Engraçado é que aquelas pessoas que por vezes mais contamos com elas, são as que não estão presente e as que menos contamos, são as que estão presentes. Tive imenso e ainda tenho imenso apoio.

Coseram a minha barriga a um sábado, no domingo eu já estava a andar, por mais que eu tivesse dores e falta de força nas pernas… porque eu só queria era sair de ali e ir ter com a Lara. Na segunda-feira, voltei a meter me de pé, com a esperança que me dessem alta. A médica foi me ver e sabia que eu estava em sofrimento ali e deu me alta. Vim para casa e pude finalmente abraçar a minha filha, vieram-me as lágrimas de felicidade e ao mesmo tempo tristeza porque eu era como uma criança, não conseguia fazer nada sozinha. O meu marido é que me ajudava a levantar, a deitar, a tomar banho e até trocar o saco de colostomia… Passaram meses e ainda hoje não sabem a causa disto tudo, ando a fazer exames mas nada… pior ainda, fiquei quase sem ver de um olho, e ao fazer mais exames, descobriram que eu tenho esclerose múltipla (estado avançado).
Ando a lutar todos dias para andar bem, até porque a minha filha precisa da mãe e o meu marido de uma mulher que esteja bem. Para isso, eu vejo uma psicóloga, que tem sido maravilhosa comigo. Eu não sei do que vai ser de mim daqui uns tempos… a tristeza ainda é muito grande. Durmo a reviver os tempos do hospital… quero me vestir e não sei o que usar porque tenho um saco e por vezes dores… Tenho saudades de me sentir EU.
Só quero dizer às pessoas que passaram por algo igual ou mesmo pior, que eu admiro-as e desejo-lhes muita coragem. Tudo se consegue e eu espero conseguir, um dia, sair deste pesadelo.”

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