Há dias que começam mal e não há nada a fazer. A minha mais nova acordou já com o dia torto na cara. Daqueles em que decidem, ainda antes de abrir bem os olhos, que não estão para amar ninguém. E foi birra atrás de birra desde o primeiro segundo: para sair da cama, para se vestir, para tomar o pequeno-almoço, para calçar os sapatos, para sair de casa. Tudo. Cada gesto simples do costume virou um braço-de-ferro.
Quem tem filhos sabe do que falo. Não é o momento em que fazem uma birra. É a acumulação. É a décima birra do dia, ainda antes das nove da manhã, que já não se aguenta com a mesma paciência da primeira.
Chegámos ao campo de férias já nessa nuvem. E aí começou a segunda parte do dia.
Uma birra que se transformou noutra coisa
Estava lá uma mãe com as duas filhas mais velhas. Cumprimentei. Elas cumprimentaram de volta. As minhas, nada. Chamei a atenção. Chegou depois uma funcionária do acolhimento, já de alguma idade, simpática. Cumprimentei-a. A senhora e as miúdas dela responderam. As minhas, outra vez nada.
E depois chegou outra mãe, com a filha dela. Cumprimentei. A mais velha respondeu. A minha mais nova não. Chamei-lhe a atenção, pedi-lhe, várias vezes, que cumprimentasse. E ela fincou o pé. Literalmente: bateu o pé no chão, calada, com aquela cara de “não e não”. Disse-me que não, assim mesmo, de frente.
Já lá iam uns minutos de braço-de-ferro quando decidi que estava na hora de ir embora. Pedi-lhe para irmos buscar a mochila, ela não se mexeu. Agarrei-lhe o pulso e disse-lhe que íamos na mesma. E foi aí que ela se atirou para o chão.
Não a larguei. Continuei a puxá-la, com força, porque num segundo em que uma criança se atira ao chão de propósito, o medo que tenho não é de estar a ser rígida a mais — é de ela bater com a cabeça. E continuei a andar.
Não foi o meu melhor momento. Sei-o. Se me perguntarem se voltaria a fazer exatamente aquilo, hoje, com a cabeça mais fria, provavelmente não. Mas também sei que não há manual que se aguente com precisão cirúrgica ao fim de um dia inteiro de birras, cansaço e uma criança a atirar-se para o cimento à minha frente.

A senhora que decidiu que era ela quem mandava ali
Foi nesse instante que a mãe das raparigas mais velhas veio ter comigo. Disse-me que eu não podia fazer aquilo. Que ela era psicóloga. Que percebia que eu precisava de ajuda profissional. Que eu não estava bem.
Não me chateei por ela ter uma opinião. Chateei-me porque, em vez de uma frase e um passo atrás, ela avançou. Ficou por cima de mim, com as mãos quase a tocar-me na cara, a falar por cima de mim mesmo quando eu lhe pedia — não uma, dez vezes — que se afastasse. Ameaçou chamar a polícia. Disse que talvez devesse ter filmado tudo e posto nas redes sociais. Eu disse-lhe que fizesse isso mesmo, já que parecia ser a única forma de ela perder de vez a pouca razão que achava ter.
E a funcionária que estava ali ao lado, no acolhimento? Não se mexeu. Nem uma palavra. Fiquei com a sensação nítida de que também ela estava a avaliar-me — e não à outra senhora, que gritava ameaças a metro e meio da minha cara.
Foi aí que decidi que não deixava as minhas filhas ali. Virei-me para a mais velha e disse-lhe para ir buscar as coisas dela também, porque íamos embora as três. Não me sentia segura.
Quando pedimos ajuda e ninguém sabe separar as coisas
A funcionária limitou-se a dizer que precisava do nome das minhas filhas — sempre com a outra senhora ao lado, como se fizessem parte da mesma equipa. Recusei falar ali. Comecei a andar pelo corredor.
Foi então que apareceu uma segunda funcionária, mais nova, que percebeu que algo se passava e me seguiu. Contei-lhe, resumidamente: tinha tido uma altercação com a minha filha, que estava a fazer uma birra feia, e uma senhora tinha decidido meter-se onde não fora chamada e escalar aquilo para uma dimensão completamente desproporcional. E que a colega dela não tinha sabido separar as duas situações.
Disse-lhe que ia esperar lá fora — na verdade, fui para um sítio próximo de onde conseguia ver quem entrava e saía — e que só voltava quando aquela senhora se fosse embora. Não confiava nela perto das minhas filhas.
Esperei. Liguei ao meu marido, ainda a tremer por dentro. E quando a hora das atividades chegou, a segunda funcionária ligou-me a dizer que já podia voltar.

O que mais me custou não foi a birra
Voltei. Falei com ela outra vez, e a primeira funcionária — a que não se tinha mexido — veio dizer-me que a senhora tinha ido embora “muito afetada”, com medo de que as minhas filhas perdessem o acesso às atividades só por causa do que ela tinha dito.
E aí é que eu disse o que precisava de dizer: aquela senhora não estava afetada por preocupação nenhuma com as minhas filhas. Estava frustrada porque se armou em heroína, decidiu que sabia tudo só porque disse ser psicóloga — coisa em que, sinceramente, não acredito numa palavra — e, quando percebeu que a situação não ia como ela queria, precisou de arranjar uma desculpa para a irritação dela.
Disse também à funcionária, olhos nos olhos, que reparei perfeitamente na diferença: a mim, ninguém me pousou uma mão no ombro. À outra senhora — a que ameaçou chamar a polícia, a que ameaçou publicar nas redes sociais, a que passou os primeiros cinco minutos a avaliar-me sem me conhecer de lado nenhum — essa teve colo, teve mãos a acalmá-la nos braços. Deixei bem claro que se alguma vez sentisse as minhas filhas a ser tratadas de forma diferente por causa de uma leitura errada de alguém, seria a funcionária a ter de justificar isso, não eu.

E depois disto tudo, fico convosco com uma pergunta difícil
Não vou fingir que saí dali com uma lição bonita e arrumada. Saí virada do avesso. E há uma coisa que não sei bem onde arrumar: dizem-nos, desde sempre, que o amor de mãe é incondicional. Mas houve um momento, naquele dia, em que não senti isso. Senti cansaço, senti raiva, senti-me julgada por uma estranha que não sabia nada da nossa vida — e, por baixo de tudo isso, senti que também não estava a gostar muito de mim mesma naquele momento.
Acho que ninguém fala muito sobre estes dias. Falamos de birras, sim, de cansaço, sim. Mas raramente admitimos, em voz alta, que há dias em que o amor incondicional parece uma frase para os cartões de Dia da Mãe, e não para as 8h43 de uma terça-feira num campo de férias.
E vocês? Já tiveram algum dia daqueles em que sentiram que alguém — professor, monitor, um desconhecido bem-intencionado — decidiu julgar-vos sem saber a história toda? E, mais difícil ainda: já tiveram algum dia em que o amor incondicional não pareceu assim tão incondicional? Contem-me nos comentários. Garanto que não sou a única.
Nota: imagens feitas por Inteligência Artificial
