A Mamã convida: “Toda a gente me avisou de tantos perigos, ninguém me preparou para ser feliz”

Hoje, uma história de mudança, de encontros com a própria vida e de uma casa cheia. Hoje, a convidada é a Carolina Ferraz 🙂

“O meu nome é Carolina Ferraz, tenho 34 anos, 6 filhos com o meu amor de há 18 anos.

(Com as idades 17, 16, 12, 11, 8, 3).

Decidi ser mãe a tempo inteiro quando a minha filha mais velha, na altura com 5 anos, intimidou a irmã mais nova com uma frase do tipo ‘Deus castiga’.

Pus o mundo em pausa, eu não acredito num Deus castigador nem em expiação de pecados. Nem ninguém da nossa convivência fala nesses termos. Não tenho nada contra quem acredita que a vida é um caminho de martírio, mas eu simplesmente sinto e vejo as coisas de maneira diferente.

Acho positivo que os meus filhos tenham contacto com outros tipos de mentalidade, porque principalmente quero que cresçam com capacidade de adaptação e aceitação, e no fim eu posso sempre estar enganada na minha visão do mundo, é bom que eles saibam que existem vários caminhos para a realização pessoal e os pais não sabem tudo, eles têm mesmo de saber pensar e observar.

Mas esta postura de certeza com uma premissa que para mim é tão errada, fez-me questionar seriamente algumas coisas que até então ainda não tinha pensado.

Eu deixo as minhas filhas na escola elas estão mais tempo com estranhos do que comigo, estão a ser formadas/formatadas por quem? Sob que princípios? Será que eu concordo com eles? Será que eu quero que as referências profundas, a base da formação do seu ser seja entregue a estranhos que eu nem sei no que acreditam.

Não me fazia sentido.

Outra questão, eu adoro ser mãe, adoro ficar horas a brincar a pintar a desarrumar, a ensinar e a aprender com elas.

Não tinha, nunca tive, nenhum sonho de carreira ou conquistas, simplesmente não é do meu feitio; faz algum sentido eu ir trabalhar e elas para a escola, quando o que eu ganho só dá para pagar a escola? Já eram três princesas na altura, com 6, 5 e 1 anos. A correria para cumprir todos os horários, o cansaço e falta de paciência com que se chega a casa; eu não estava a evoluir como pessoa, estava a ficar pesada e infeliz da rotina esmagadora, o ‘tem de ser’ ou ‘é assim’ sempre me criaram alergias.

Outra das questões era a minha segunda filha que entrou para a escola com 1 ano, tinha tido ama em casa. Ela estava dependente da atenção da irmã para tudo, eu senti que ela não estava a olhar para si, estava à sombra da irmã. Na altura, ela tinha 5 anos e eu pensei, “quando ela entrar no ensino obrigatório são 12 anos de rotinas em que eu não posso interferir, vou tirá-la da escola, fica comigo em casa e com a irmã bébé (porque a mais velha já ia para a primeira classe) e eu trabalho a auto-estima dela”.

Eu acho as regras sociais tão esmagadoras que é para mim fundamental que os meus filhos tenham auto-estima, que se conheçam para poderem escolher e decidir de acordo com o que são.

Que não se percam no que deviam ser que é para mim a doença da insatisfação.

Eu tinha já percebido que os filhos precisam mesmo é de mães felizes e saciadas, se eu tivesse sonho de carreira ou outras coisas, seria a isso que me dedicaria porque, mais que tempo, eles precisam sentir segurança e satisfação no futuro que nós lhes ilustramos. E quando estão com as mãe precisam sentir conexão, que há tempo para os ouvir, tempo com qualidade. Eu acho que conseguiria dar-lhes isso mesmo se a minha realização estivesse longe de casa, porque ia chegar feliz e realizada e disposta para mais realização. Mas eu não sou assim.

E tive de lutar principalmente com os meu preconceitos.

Venho de uma família de mulheres orgulhosamente independentes financeiramente, a minha avó lutou contra a maré para trabalhar. Sempre o disse com orgulho, é o seu legado.

E eu dizia-me, “andaram as mulheres a lutar para poderem ser e fazer na sociedade e eu agora quero ser limpadora de rabos e panelas (só que é muito mais do que isso), e depois eles crescem e eu fico no vazio”, etc…

Os argumentos eram muitos, os meus eram os piores de todos, e se ultrapasso os meus próprios preconceitos e medos, com os dos outros passo eu bem.

Foi ai que eu percebi, as mulheres andaram a lutar, sim, e ainda o fazemos, mas principalmente para haver opção de escolha, liberdade de movimentos, e acolhimento e aceitação nessa escolha. Eu como mulher e mãe sinto-me realizada assim, não me cansa limpar a casa porque estou sempre a criar novos cantinhos com decoração deles e minha e dos nossos momentos, sinto-me uma fazedora de ninhos, uma criadora de histórias em conjunto.

Adoro ver brinquedos espalhados, são o rasto da vida que ali se movimentou. Pendurar as roupas e acompanhar o crescimento pelas calças e meias. As modas, os estilos.

Adoro poder olhar para os meus 6 filhos e sentir como estão, adoro ter tempo para saber deles o suficiente para perceber quando está na altura de ter uma conversa individual, porque estão numa fase confusa do crescimento, ou porque aconteceu algo com as amigas. Ou quando não querem falar, mas precisam de um abraço e um “gosto muito de ti”.

Passei uns meses a pensar nisto, e a debater com o meu marido; não era muito viável economicamente, mas as escolas também são caras, e eu estava grávida outra vez. Fazia todo o sentido e foi assim que aconteceu. Sempre tivemos uma boa rede de suporte, mas escolhemos afastarmo-nos dela porque não sentíamos ter espaço para a nossa família numa dinâmica de cidade, e mudámos para o campo, mas isso é outra história.

Mantive-me como mãe a tempo inteiro até estarem todos na escola, depois tentei novamente o mundo do trabalho, e desisti novamente pelas mesmas razões.

Sempre brinquei a contar historias e a escrever poemas e a pintar e ilustrar as minhas lutas e conquistas pessoais, a contar as nossas aventuras, quem tem imaginação tem muito, eu sempre fui fértil nesse campo. Então comecei a fazer bonecos, criei um modelo e personalizava para cada pessoa que me pedia, agora alastrei esse dom para a pintura e ilustração que misturo com escritos. Gosto da ideia de fazer de uma história uma obra de arte, porque acho que as pessoas não se vêem, não param para observar a obra que estão a criar com a própria vida. Eu vejo a minha, então é fácil ver luz e amor e qualidade onde as vezes os protagonistas veem dificuldade e contrariedade.

E é tão importante parar para observar, e gostar do que se vê, ou ter coragem para encontrar um caminho novo de encontro à satisfação pessoal.

Sempre usei a cozinha com os meus filhos, neste momento todos sabem cozinhar (menos a bebé), coisas simples. Gostam de o fazer e responsabilizam-se naturalmente pela arrumação.

Cada um trata de arrumar o quarto, as roupas, as gavetas, ao fim de semana as tarefas são partilhadas, limpar o pó, os vidros, o chão, são tarefas comunitárias e eles cumprem, cada vez com menos “refilice”. Eu acho importante eles saberem tomar conta de si, e consoante vão crescendo eu vou atribuindo tarefas. Claro que o maior fica para os pais, eu e o meu marido partilhamos todas as tarefas desde sempre. Claro que, como ele trabalha fora de casa, muitas têm ficado para mim, mas eu faço sem peso sem pressa ou frustração, muitas vezes revejo o que fiz só para perceber porque o meu corpo está cansado e é ai que observo que faço muita coisa todos os dias, mas tenho gosto nisso, quase nem noto.

Tive fases mais difíceis e que era tudo em cima de mim, episódios de exaustão; claro que sim, físico, emocional e mental, é um desafio imenso, mas tudo no fundo o é, tudo no fundo dá trabalho, a tê-lo que seja com gosto e amor.

Tive de me construir, destruir e reconstruir, abdicar de muita coisa, várias vezes, custa claro, mas acho que é a natureza humana, não acho que vou deixar de ter desafios, nem quero.

Falhei muito e acertei muito também. Todas as decisões que tomamos como família são muito bem conversadas entre mim e o meu marido, ambos validamos a visão e opinião do outro. E no fim só eu e ele sabemos o futuro que estamos a construir neles. Sempre fomos os melhores amigos um do outro, aconteceu assim. Também nos zangamos, claro, mas o que nos une é tão forte que nos mantemos, sempre combinamos manter-nos juntos por amor e não por obrigação, e ele continua forte e estimulante como no princípio.

Não busco nada de garantido, porque não acredito nisso, acredito na evolução e na mudança e sempre senti que se me prender à ideia de estabilidade estou a amputar o fluxo da vida. A minha estabilidade é saber que nada é realmente estável, tudo está em constante mudança. Não imponho nada aos outros pelo contrário, tantas vezes além dos meus filhos tomo conta de outros, ou porque a mãe é solteira e tem de ser tudo e precisa de apoio, ou porque a mãe está sobrecarregada e já nem consegue ver bem os filhos de exaustão, ou porque sim é bom para todos alargar o núcleo. Já fomos a família temporária de muita gente que não tem família e só precisa descansar um pouco num ninho. Ou têm uma família que os rejeita e na minha sentem-se aceites e acarinhados.

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Já tivemos muitas aventuras como família, eu aventuro-me principalmente porque não acredito que os filhos nos limitem os caminhos, para mim eles dão gás aos sonhos e ao porquê de existir. E vejo tanta pressão para ver peso neles. A quantidade de pessoas que me chama de coitada por ter tantos filhos, ou dizem com um ar exausto, já chega filha, na maioria pessoas que eu não conheço de lado nenhum. Ou os meus filhos dão trabalho a muita gente ou há muita gente tão insatisfeita com a própria vida que não vê além do peso que ela tem. Porque o tem sim, é difícil, complicado, às vezes desesperante mas não é só isso, é pelo menos o equivalente de coisas maravilhosas, no fim, o nosso livre arbítrio só nos permite escolher como olhar, com peso ou com leveza. Com medo ou com coragem.

Eu escolho ver as coisas boas que retiro de cada momento.E são tantas.

Na verdade nunca fizemos nada sozinhos, mesmo não concordando com algumas opções a família esteve sempre lá, a minha e a do meu marido principalmente. Que sempre quiseram fazer parte da vida deles e ainda bem, férias com os avós paternos sempre fizeram, não por necessidade mas por pura vontade de estar com eles.

Além disso nada como umas férias uns dos outros, todos entramos em ponto de saturação de vez em quando. Eu sempre consegui ter momentos de solitude que me são tão necessários, porque eu crio a rotina e nela contemplo as minhas necessidades, adapto.

Preciso de silêncio e de organizar as ideias. Tantas vezes, o pai vai dar um longo passeio com as crias e a mãe fica a por ordem na casa e na cabeça e ter tempo para conversar consigo e dançar e cantar, (que é como arrumo a casa). No fim o ninho composto e harmonizado, a mãe vai passear consigo, ou ler um livro ou escrever, ou pintar, ou tomar um banho relaxante ou só não fazer nada.

Os livros sempre foram a minha boia de salvação, a inspiração para ver novos caminhos para quando não vejo saída. E a expressão, arte para mim não é distração é extração de sentimentos e ideias e episódios. Livros e expressão são os meus materiais de construção e apaziguamento internos.

Já tive vários tipos de rotina, a da mãe que estuda, a da mãe que trabalha e estuda, a da mãe que trabalha, e a da mãe que trabalha o dia todo enquanto eles desfazem o dia todo, porque a mãe que fica em casa também trabalha e muito, mas tem de se reconhecer a si própria e apoiar-se muito e no meu caso ter muitos bons amigos e amigas, que não te julgam mas te apoiam sem deixar de dar opinião. Eu aprecio sempre a visão de fora, porque quero mesmo fazer um bom trabalho e só nós os dois não vemos tudo.

Tivemos sempre pessoas nesta caminhada connosco, familiares e amigos e não conseguiríamos um resultado tão bom se assim não fosse. Eles são 6, mas raramente se zangam uns com os outros, todos se entre ajudam, e passam esse comportamento para fora, são todos saudáveis, inteligentes, criativos, divertidos, felizes e chatos claro, ciúmes há muito pouco, há muita conversação, pouca televisão, ninguém têm tablets, já começam a haver telefones, com algumas regras. Neste momento já posso ir jantar fora com o meu marido que as mais velhas tratam de tudo, desde banho à pequenina a jantar aos irmãos, e pô-los na cama.

E fazem sem peso gostam, é raro mas já acontece.

As minhas filhas mais velhas enchem-me de orgulho, são fortes, decididas, prestáveis, emocionalmente estáveis, orientadas no que querem fazer, sempre com capacidade de observar o outro, estão me a sair melhor que a encomenda. Eu investi o meu tempo e estou a ver esse resultado, é maravilhoso. Nunca tivemos as coisas de marca ou topo de gama, mas existe sempre essa conversa porque os amigos têm, quer seja os lanches açucarados ou os aparelhos ou os sapatos de marca x, existiu até agora sempre a conversa que esclarece porque eles não têm, isso inclui-os nas decisões eles percebem a lógica das decisões, ou às vezes percebem que ainda não percebem e têm de confiar. Isso passa segurança, eles saberem para onde estamos a ir, estamos juntos disponíveis, porque eles são importantes.

Educo a investir na sua autonomia e independência, o tempo passa tão rápido, não sinto que perdi nada, pelo contrário. Em consciência, se me perguntassem aos 15 anos se queria ir por ai, acho que escolhia outro destino, mas ainda bem que não tive grande opção de escolha (os contracetivos nunca resultaram muito comigo), sinto que não tinha a capacidade de engendrar uma vida que me completasse tanto e me fizesse descobrir ferramentas e capacidades tão desconhecidas, eles mostram-me o meu tamanho, melhor, mostram que não tenho tamanho, sou de recursos ilimitados quando o desafio são as minhas crias, e é maravilhoso saber disso por experiência própria. Quando o bebé esta na barriga, há algo que decide a ordem de formação do feto e a perfeição com que acontece, esse algo é onde deposito a minha fé. Dar à luz, trazer vida ao mundo, é maravilhoso e assustador. Nunca se está preparado, mas da maneira que cresce o braço do bebé, dessa misteriosa maneira, também cresce em nós a capacidade de fazer frente ao desafio. A vida flui, e temos de saber fluir com ela ao mesmo tempo que temos de dar chão ao que flui, traçar caminho quando é preciso.

Equilíbrio para tudo. Nem muita ordem nem muito caos, nem muita regra nem muita anarquia.

É uma imensa responsabilidade, formar pessoas desde o berço. No meu caso eu abraço este desafio com todo o prazer sensação de privilégio. Como todos os desafios tem altos e baixos, e consequências e recompensas, mas não são todos os caminhos assim?

Tenho um compromisso comigo, ao fim do dia, todos os dias, tenha sido bom ou mau pergunto-me, sinto-me feliz? Tem sido sempre um sim, há anos.

Toda a gente me avisou de tantos perigos, ninguém me preparou para ser feliz, eu estava tão pronta para sofrer que achei que não me estava a acontecer tanto amor e felicidade, quase deitei tudo a perder com medo, porque só expectava, quando vai chegar a tal coisa negra que faz da vida um horror? Foi quando percebi, a vida não é bem assim, estes adultos estão um bocado à nora, na bússola da felicidade. Dizem coisas como não existe a felicidade existem momentos felizes. Pois eu digo, porque me dei esse direito, não existe a tristeza existem momentos triste, e depois há escolhas.

Batalhas temos todos, e eu tenho histórias que fariam chorar as pedras da calçada mas eu vivo histórias que enchem de cor as pedras da calçada. É uma escolha.

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A foto é da Catarina com a sua família 🙂 Muito obrigada pela partilha!

 

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