A Mamã convida: “O desejo primário de ajudar uma criança”

A Catarina vem hoje partilhar convosco uma história um pouco diferente do habitual: fala-nos da adoção da sua irmã, numa altura em que, se calhar, poucos de nós pensariam fazê-lo. 😉

Agradeço desde já à Catarina esta partilha tão inspiradora! 👪

“Eu tenho uma irmã que sempre desejei. Tenho uma irmã adoptiva que chegou já depois de eu estar casada.

Tenho uma irmã, com a qual não partilhei o quarto, não partilhei roupas, a maquilhagem, não partilhei segredos de namoradinhos, nem saídas à noite, não partilhamos a mesma casa, mas partilhamos o mesmo amor, dos mesmos pais.

A minha irmã vem de uma família numerosa, com irmãos muito unidos nos laços de família e amor, é filha de uma mãe que morre cedo demais, quando nasceu o oitavo filho e de um pai que tem a sua própria família, já com outros filhos.
Uma família disfuncional, mas que se ama e se protege incondicionalmente.

A opção da adopção da Sandra acontece pelas circunstâncias da vida, a necessidade de dar um lar a sete crianças ainda pequenas que tinham perdido a mãe de uma forma tão repentina e dramática.

Os meus pais fazem parte de um grupo católico que toma conhecimento que há uma família com muitas crianças que acaba de perder a mãe. É dado a saber à comunidade que as crianças precisam de uma família, seja de acolhimento ou para adopção futura. É feita a pergunta à minha mãe. “Margarida queres ficar com uma criança?” É com esta pergunta que tudo começa no seio da nossa família.

Os meus pais sempre quiseram outro filho, que nunca chegou depois de mim. Mas eu agora sou adulta, casada, com a minha própria família. Os meus pais têm na altura 50 e 54 anos, mãe e pai respectivamente. Estão sozinhos em casa porque a única filha tinha acabado de casar, um quarto livre, muito amor para dar e com capacidade financeira para acolher uma criança. A minha mãe fica impaciente, a cabeça não pára de pensar que sim, pode ajudar. O meu pai por sua vez não aceita, acha que é uma loucura, as suas vidas vão mudar certamente, sem ainda a certeza e a consciência de saber o quanto.

Eu, eu sou informada pela minha mãe do que está a acontecer e do que pretende fazer. A minha reacção é negativa, não pelo facto de ajudar uma criança, mas a pensar na responsabilidade que isso implica para os meus pais. A minha mãe já não desiste da ideia, quer muito ajudar, pode ajudar, o que é que a impede de o fazer? Nada, determinada como sempre avança e vai buscar a criança.

A minha mãe vai sozinha a casa dos amigos onde permanecem as crianças desde que o drama aconteceu. Fica a saber que vai trazer uma menina, uma menina com oito anos, a Sandra.

A primeira vez que vejo a Sandra foi nesse mesmo dia, vi uma criança frágil, tímida, insegura sem saber concretamente o que lhe está a acontecer. Só sabe que vai ter uma nova família, que se vai separar dos irmãos e vai começar uma vida nova. Não lhe vi o rosto naquele dia, ela nunca levantou a cabeça, não falou, estava infeliz e completamente perdida. Nós não, nós tínhamos uma vida nova que dependia agora de nós. Foi adoptada imediatamente, o que estivesse para vir, nós estaríamos prontos para ajudar, era nossa, minha irmã.

Os meus pais receberam a visita das assistentes sociais, por forma a verificarem as condições, a situação económica, as ajudas que pudessem ser dadas. Ajudas que nunca chegaram, o estado Português nunca ajudou com nada. Mesmo quando o meu pai fica desempregado alguns anos mais tarde, nem SASE (na altura) teve direito. Mas a minha mãe sempre disse que não contava com nada, não se ia mexer para receber nada, seríamos nós a resolver em família todos os problemas.

Não houve tempo para preparação psicológica, não houve tempo para preparação financeira, não houve tempo para uma preparação à revolta da Sandra.

A Sandra não falava dos seus sentimentos, não manifestava as suas emoções, ficava fechada na sua concha e quanto mais se oferecia ajuda, mais ela fugia dela. Fomos perdendo a conta às consultas na psicóloga, o passado era triste e doloroso, chorava sem fim e não queria falar. Contudo o presente apresentava-se agora risonho e com um brilho diferente.

Os irmãos de sangue da Sandra estiveram sempre presentes na sua vida, iam juntos à catequese, os que tinham a idade mais próxima frequentavam a mesma escola. Festejavam os aniversários juntos, visitavam juntos o pai. As famílias de acolhimento e adoção confraternizavam juntas para que todos mantivessem sempre uma presença constante dos laços de afecto e familiares.

Houve muitos momentos difíceis, sobretudo porque a Sandra não se expressava, não manifestava os seus sentimentos, foi difícil aceitar que havia vida com regras, achava que estava sempre de castigo porque lhe impunham regras, com as quais não estava habituada. A escola sempre foi um problema, a falta de entusiasmo e as dificuldades de aprendizagem dificultavam a sua progressão, que veio a ser colmatada com um curso de especialização.

Eu e o meu marido sempre acompanhamos o crescimento da Sandra, éramos os padrinhos de batismo, que foi entretanto um ano mais tarde realizado e uma grande ajuda no seu desenvolvimento pessoal. Ajudamos sempre com a sua educação e encaminhamento para a sua vida de adulta. A comunidade também foi muito importante como apoio, sobretudo a partilha de experiências dos outros “pais” dos irmãos.

Quando a minha filha nasceu, tinha a Sandra na altura 10 anos, foi sem dúvida uma grande ajuda. A Sandra começou por perceber que a vida era feita de regras, que a atenção e o amor que lhe dávamos era porque gostávamos mesmo dela.

A adopção é um livro fechado e muito mais quando as crianças já têm mais idade, quando já viveram outras experiências, muitas delas até traumáticas que foi o caso da vida da Sandra em casa da mãe. Para uma criança que perde a sua mãe, a sua casa, os seus irmãos, também não é fácil a adaptação.

Hoje a Sandra já está casada, já tem a casa dela, o emprego dela e terá certamente os seus filhos. É uma adulta responsável, educada com bons valores, bons princípios e com um coração enorme.

Dezassete anos depois, não consigo pensar na Sandra como uma irmã adoptiva, mas sim como sempre foi minha, minha irmã, minha afilhada, uma protetora e conselheira para a minha filha. A vida pode não ter sido fácil, mas tornou-se um doce de pessoa.”

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