3 Dias em Bordéus: Matisse, Gatos e o Esparguete que viajou connosco

Fim de semana prolongado · 29 março – 1 abril · 2 adultos + 2 Pipocas (6 e 8 anos)

Confessei a verdade depois de fazermos as malas: levei esparguete na mala de porão. Não me arrependo nada.

Bordéus não foi a viagem da nossa vida — mas foi exactamente o que precisávamos: uma cidade plana, fácil de calcorrear, cheia de coisas para fazer com as Pipocas, e a menos de duas horas de avião. Ah, e houve um momento em que as duas ficaram em silêncio absoluto dentro de uma antiga base submarina, com o Matisse a dançar nas paredes e na água. Fantástico ❤️

O nosso porto seguro: Rue Lafaurie de Monbadon

Escolhemos um apartamento na Rue Lafaurie de Monbadon, uma rua central e surpreendentemente calma, a dois passos do jardim público de Gambetta. Ficámos num edifício histórico de quatro andares onde cada piso é um apartamento independente.

Calhou-nos um 3.º andar sem elevador (fomos avisados após reservar, mas sabíamos dessa possibilidade quando reservámos). Nós subimos e descemos bem, mas se viajam com carrinhos de bebé ou têm problemas de mobilidade, confirmem sempre este detalhe — em Bordéus, os prédios antigos raramente têm elevador.
Uma nota sobre a caução: o apartamento cobrou 350€ de caução no check-in (também explícita na reserva), que foi devolvida na íntegra dois dias após o regresso, conforme indicado na página do Booking. Não é um custo real, a mesmo que algo corra mal, mas é importante ter essa verba disponível na conta, pois é retirada e.

A cozinha era o sonho de qualquer mãe em viagem: placa, forno, micro-ondas, máquina Nespresso e — o toque de luxo — máquina de lavar loiça. Com o cansaço das Pipocas ao fim do dia, ter este conforto foi meio caminho andado para o sucesso. O apartamento era moderno, com ar condicionado nos quartos e na sala, o que garantiu momentos de descanso ótimos. Fizemos pequenos-almoços e a maioria dos jantares em casa, o que fez uma diferença enorme no orçamento.

Como chegar do aeroporto ao centro

O aeroporto de Bordéus tem metro de superfície mesmo à porta — é só seguir a sinalização e apanhar a linha F, que é a única lá. Cada viagem custa 1,90€ por pessoa, e funcional tal como cá no Porto — comprámos e depois validámos ao entrar ou na estação. No nosso caso, pagámos 7,60€ para os quatro nessa primeira viagem.

O CityPass cobre esta linha de metro, mas só pode ser levantado no Posto de Turismo, no centro da cidade — mesmo que comprem online. Isso significa que na chegada, independentemente de terem o CityPass comprado, têm de pagar as viagens à parte.

Dia 0 — Domingo, 29 de março: a chegada

Chegámos a um domingo à tarde e… Quase tudo fechado. Os supermercados franceses levam o descanso dominical muito a sério. Safámo-nos num My Auchan (estilo loja de conveniência), mas a escolha era curta e os preços de loja de conveniência.

Na primeira tarde, depois de deixarmos as malas, não resistimos a explorar a pé. Descemos até à Place Gambetta — uma praça tranquila com jardim, perfeita para as Pipocas libertarem a energia acumulada no avião — e voltámos pelo bairro, passando pela Porte Dijeaux, uma das antigas portas da cidade. É exactamente o tipo de passeio sem roteiro que recomendo para qualquer primeira tarde: sem museus, sem plano, só para perceber como a cidade respira.

Place de Pey Berland

Para o jantar, não quisemos aventuras: fomos ao Peppone, mesmo ao lado do apartamento. É um clássico da zona e percebe-se porquê — doses generosas, ambiente acolhedor, e as Pipocas ficaram satisfeitas. Pagámos cerca de 60€ por duas pizzas, uma massa e bebidas, e ficamos muito satisfeitos.

💡 Dica para chegadas ao domingo: levem algum stock de Portugal ou façam uma paragem num supermercado maior antes de chegarem ao centro, se ainda estiverem no horário de funcionamento (fecham, na grande maioria, entre as 12h30 e as 13h, sendo que nós chegámos pelas 17h).

Dia 1 — Segunda-feira, 30 de março: o dia da chuva e dos imprevistos

Pequeno-almoço no apartamento e saímos para o que prometia ser um dia cheio — que acabou por ser o dia mais caótico, e também um dos mais memoráveis.

Bassins des Lumières

De manhã, após comprarmos os Citypass, fomos directos aos Bassins des Lumières, e foi aqui que a viagem ganhou outra dimensão. Imaginem uma antiga base submarina alemã, bruta, de betão, onde as paredes e a água se transformam em telas gigantes. A exposição era dedicada ao Matisse, e as Pipocas ficaram coladas às luzes e ao som — em silêncio, o que já diz tudo. Foi, sem dúvida, a melhor experiência visual da viagem.

Exposição de Matisse no Bassins des Lumières

💡Nota prática importante: o Google Maps sugere apanhar o metro e sair perto da Cité du Vin, mas isso ainda implica uma caminhada de 20 minutos — que nós fizemos debaixo de chuva miudinha, o que não foi nada agradável. No regresso, descobrimos que há um autocarro directo até ao metro que poupa muito tempo e esforço. Façam ao contrário do que nós fizemos: vão de autocarro.

Almoço no Alma Portuguesa

A zona de Bacalan à segunda-feira é um verdadeiro deserto — o mercado fecha, os restaurantes fecham. O Alma Portuguesa foi o nosso salvador: um dos raros sítios abertos, onde almoçámos bem por cerca de 60€ para os quatro.

Zona de Bacalan

O episódio do Cap Sciences

A seguir, tínhamos planeado visitar o Cap Sciences. Nessa manhã, no Posto de Turismo, disseram-nos que estava aberto. Fomos. Estava fechado. Moral da história: mesmo as fontes oficiais falham, e o Cap Sciences fecha à segunda-feira. Confirmem sempre os horários directamente no site antes de sair de casa.

Com a chuva lá fora e o plano por terra, improvisámos: fomos ao Museu das Belas-Artes, uma boa alternativa para um dia mais parado.

Nekomata Cat Café

À tarde, a paragem que as Pipocas mais antecipavam: o Nekomata Cat Café, mesmo na nossa rua. É um espaço de silêncio e respeito pelos gatos, perfeito para baixar a energia depois de um dia de imprevistos.

Nekomata Cat Café

O Nekomata requer reserva antecipada. A entrada custa 10€ por pessoa por 1 hora (adulto ou criança), valor que já inclui uma bebida. Idealmente, não apareçam sem reserva, porque enche e o tempo passa rápido lá.

Como saímos de lá pelas 17h, ainda demos um bom passeio depois, pela zona marginal, passando pela Place de la Bourse, indo pela Quai de la Douane até ao Mirroir D’Eau (Espelho de Água). Era dos pontos que nos diziam para ver, uma praça com água que espelhava o redor. Novamente uma desilusão, já que estava seca. Pelo positivo, deu para as miúdas correrem para a frente e para trás — a nossa Pipoca mais nova, principamente, precisa destas pausas para libertar energia. Fomos até à Porte Caillau (fechada, mas caso queiram visitar podem usar o Citypass) e depois “perdemo-nos” pelas pequenas ruas da cidade, muito giras, no caminho para casa.

Porte Cailhau

No regresso ao apartamento, fizemos uma paragem no supermercado e aproveitámos para descobrir a La Toque Cuivrée — onde comprámos canelés frescos, o doce típico de Bordéus. Vendem-se em vários tamanhos — mini, lunch (médio) e gros (tamanho normal), e nós optámos pelo médio sempre que lá fomos. Noutras pastelarias da especialidade têm este doce com sabores que não o original, mas eram muito mais caros, e não apareciam tão bem recomendados, então ficámo-nos por esta cadeia. A seguir, lá seguimos para jantar em casa — íamos jantar a nossa massa de porão, mas os anteriores inquilinos deixaram massas Barilla que não gastaram. Foram usadas, sem arrependimentos.

Dia 2 — Terça-feira, 31 de março: o dia de exploração

Tomamos o pequeno-almoço no apartamento e saímos para o dia mais preenchido da viagem.

Cité du Vin

De manhã, fomos à Cité du Vin — e não se deixem enganar pelo nome, é muito mais do que vinho. É um museu de civilizações, altamente tecnológico e interativo, com um audioguia disponível em Português de Portugal que complementa a visita de forma brilhante.

Aprendendo sobre uvas 🍇 e vinho 🍷

As Pipocas adoraram os dispositivos multimédia, embora o sumo de uva oferecido no topo (o Belvédère) fosse demasiado doce para o paladar delas. Já nós apreciámos imenso os vinhos que experimentámos: um Chateau L’Indecise branco e um Chateux Perthus tinto.

A visita à Cité du Vin inclui um copo de vinho no fim

Almoço no Halles de Bacalan — Pulpe

Almoço no Halles de Bacalan, um mercado imperdível. Para quem é do Porto e Lisboa e conhece os Time Out Markets e similares, posso dizer que é relativamente semelhante, com mais foco nas bancas do que na “finesse” dos Time Out. Há espaço interior e exterior onde sentar e há um restaurante italiano também, à parte, mas estava fechado.

Fugimos das bancas mais óbvias e rendemo-nos ao Pulpe: por 40€ para os quatro, comemos menus completos com New York Rolls de frango e pulled pork, umas saladas frescas bem avantajadas a acompanhar, sumo de laranja natural para beber e sobremesas de comer e chorar por mais. O cheesecake de Lotus Biscoff foi o vencedor, mas o iogurte com granola não ficou atrás — e as Pipocas devoraram os Egg Muffins.

Cap Sciences (desta vez aberto)

Depois do almoço, voltámos ao Cap Sciences — desta vez com horário confirmado. A visita foi uma desilusão: o espaço é pequeno, sem nada em português (apenas Inglês, Francês e Alemão – e nem sempre com boas traduções), e várias experiências estavam avariadas. Podem saltar sem remorsos, pois talvez seja interessante para miúdos mais pequenos ou apaixonados pelo tema da exposição que estiver ativa.

Jardim Botânico e Darwin Ecosystem

O Jardim Botânico deixou-nos tristes: um espaço que devia ser vibrante, mas que parecia abandonado, sem manutenção nem atenção. À medida que escrevo, penso que às tantas a nossa fasquia é que está alta, mas a verdade é que este Jardim Botânico deixa muito a desejar.

Já o Darwin Ecosystem compensou em termos de ambiente — arte urbana, graffiti, skate park, uma energia muito própria — mas o lanche no mercado local foi uma desilusão para a carteira. A pastelaria folhada era divinal; os sumos e o café, caríssimos e muito fracos. Mais valia termos ido a um Bar à Vin e ao menos pagávamos mas bebíamos mais vinho.

Skate Park do Darwin Eco Systéme

Passeio de barco — BatCub

Para terminar o dia, apanhámos o BatCub, o barco fluvial de Bordéus. Uma forma diferente e relaxante de ver a cidade, com as Pipocas no elemento delas. Saindo em Quinconces, caminhámos

Proseguimos com o jantar em casa para recuperar energias.

Dia 3 — Quarta-feira, 1 de abril: o adeus

Último dia, ritmo mais lento. Uma última volta pelo centro, com direito a uma voltinha no carrosel e depois andámos no Petit Train pelo centro para ver o centro histórico sem cansar as pernas — o trajeto é giro, mas o audioguia é PT-BR e metade dos aparelhos nem funcionava. Além disso, o condutor claramente precisa de rever as aulas de condução, porque era cada abanadela e travagem desnecessária, que numa das vezes as miúdas saíram disparadas contra a parte da frente do assento (felizmente o espaço é pequeno e nós segurámo-las). Serve para uma visita panorâmica descontraída, sem grandes expectativas.

O Petit Train é a única coisa que requer reserva, que fazem no Posto de Turismo aquando da compra dos passes. Convém também terem em conta, caso vos impacte, que ao comprarem o passe e reservarem esta viagem (têm 3 opções: um tour a pé guiado, um tour de barco ou o comboio) o vosso passe fica ativo e começam a contar as horas. Ou seja, se nós tivéssemos comprado o passe de 48h, como o comprámos na segunda às 10h30, mesmo que não usássemos / validássemos logo, já não poderíamos marcar o comboio das 11h15 (é o primeiro horário do dia) de quarta, porque o comboio fica marcado.

Para ir no comboio, tivemos que deixar as bagagens – não é permitido levar malas, nem tem espaço para tal. Deixámos no ponto Popin, que tem cacifos de vários tamanhos, e fica central, sendo que primeiro temos que fazer um registo online e depois, quando vamos lá deixar a bagagem, é que escolhemos o tamanho do cacifo e o tempo, assim como pagamos.

Por fim, de volta ao aeroporto, ao Terminal Billi para a EasyJet. Preparem o coração: o terminal é pequeno mas incrivelmente desorganizado. As filas são intermináveis e os funcionários são conhecidos por serem pouco simpáticos. Cheguem com tempo para não terminarem as férias com um pico de stress.

O CityPass: vale mesmo a pena?

Sim, e os números provam-no. O CityPass de 72h custou-nos €186 para dois adultos e duas crianças. Em contrapartida, só em entradas nos sítios que visitámos, o valor coberto foi de €276 — a que se juntam todos os transportes ilimitados durante três dias (metro, autocarro e BatCub). No total, a poupança real ficou acima dos €170.

Reforço que o CityPass só pode ser levantado presencialmente no Posto de Turismo, mesmo que comprem online. Façam disso uma das vossas primeiras paragens ao chegar ao centro — fica na Cours du 30 Juillet, perto da praça de Quinconces, e demora apenas minutos.

O peso no bolso 💸

Assim por alto, esta viagem ficou-nos por cerca de €1400, com vôos (Easyjet), alojamento e gastos lá, incluindo já as refeições, transportes e o que lá comprámos.

Canelés de Bordéus – o doce típico da cidade

Como fizemos pequenos-almoços e a maioria dos jantares no apartamento, houve uma diferença grande no orçamento comparando com viagens em que temos que fazer as refeições fora. Nestes casos, levar algumas coisas de casa compensa. Pensem que uma embalagem básica de guardanapos de papel custa mais de 4€ nos supermercados locais e que vimos embalagens de 2 fatias de fiambre (sim, duas fatias) a €2 e €3. 😅 Chamem-me forreta, mas são pequenos detalhes que somam na carteira.

Resumindo, Bordéus é fácil, plana, e ótima para um fim de semana prolongado com crianças. Com a mochila certa e o CityPass na mão, a cidade é vossa.

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